sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Pliage de mundos

(Obs: Esse texto não é realmente um dos meus textos literários, ele é o mais próximo que consegui de uma descrição de um sonho que eu tive, um sonho puramente sensorial, não existiam palavras, eram apenas existências e momentos intensos e fortes)


Jennifer era professora de matemática do ensino fundamental; em seus 60 anos, cabelos chanel grisalhos, óculos pretos, grandes e marcantes. Excessivamente simpática, era sempre vista sorrindo pelos corredores e salas da escola, magrinha e com uma aparência totalmente frágil, parecia que se tocada iria quebrar. Jubilante, ela era a representação angelical e matriarcal das idosas mais alegres e bondosas das nossas vidas...
 Na sala de aula, ela fazia questões aos alunos e muitas vezes demorava para raciocinar os próprios cálculos e respostas requisitadas..., mas os alunos não condenavam esse atraso, todos tinham suas almas limpas no brilho do sorriso dela, enquanto ela levantava seus óculos para ver os botões da calculadora e simpaticamente pedia para os alunos esperarem.
 Mas ela tinha um segredo, que residia em silêncio eterno com ela. Na verdade ela era a melhor matemática já existente na humanidade, e enquanto um dia no Discovery channel passava um documentário sobre as fórmulas e desafios matemáticos nunca desvendados, ela fazia o bolo de laranja e sorria enquanto passavam pedaços das fórmulas, e sua mente as completava, e atingia as respostas quase que instantaneamente. Ela era mais rápida que a mais rápida das calculadoras, e tinha a capacidade de desvendar qualquer problema matemático existente, qualquer..., mas ela estava preocupada em terminar o bolo de laranja.
 Jennifer tinha um dos maiores dons da humanidade, e ela era feliz ensinando alunos pré-adolescentes. 





Eu fazia tudo por ela, levava café na cama, ela sorria levemente enquanto se espreguiçava recebendo a bandeja com suas torradas preferidas. Nós cruzávamos o olhar em silêncio, o clima do dia entrava pela janela que eu tinha acabado de abrir, os raios do sol deixavam pequenas retículas de poeiras dançando entre eles. Ela era tão linda, eu podia observar o contorno suave de seus lábios e tocar os contornos maravilhosos femininos que vem desde suas axilas, para costelas e dobras de baixo dos seios, cada pedaço do seu corpo, leve, suave, macio. Ela adorava ser acariciada, e eu flutuava tocando-a.
A gente saía com frequência, ia no cinema, alguns fins de semana ia para a praia, e no inverno eu até deixava toalha aquecida para ela sair do banho, ela adorava. Eu ouvia todas suas conversas, enfim, eu fazia tudo por ela, absolutamente tudo por ela. E ela parecia ser preenchida e completa por tudo.
 Sempre tínhamos visitas, ela tinha amigas, e encontrávamos meus pais, e seus pais, íamos a todo tipo de evento.
 Não haviam brigas na família, e o passado dela não tinha nada de sombrio ou traumatizante.
Eu nunca entendia as lágrimas que escorriam de seus olhos algumas noites... ela sempre falava que estava tudo bem, e realmente deveria estar, ela tinha uma vida de rainha e de princesa...
Ela apenas chorava algumas vezes, e era só isso... ela não reclamava, ela parecia no dia à dia tão leve quanto um anjo... Eu a amava, e eu sentia que tinha uma vida que invejava filmes românticos...
Eu nunca vou entender seu suicídio,
se eu tivesse apenas uma resposta, uma pista...
mas é uma daquelas coisas que nunca serão entendidas.
E se um dia fosse entendida..., ela já se foi, perdida no tempo, como uma resposta esquecida, de que nem toda vida é viva... e ninguém imagina o que ela procurava, além de felicidade...
Só sei que a dor que sinto agora, imensurável só me dói mais...
Por que a dela foi mais...
Angela sofreu muito mais do que isso...




É como se eu estivesse sufocado pelo vício de seu corpo, me deixa insano, tão insano que eu não quero viver nada além disso, minha mente entra em transe e tudo que eu enxergo é seu pau perfeito, eu idolatro o calor que emana dele; ele é grosso, cheio de detalhes, vermelho e quente, e completamente lindo, completamente grande e robusto, uma armadilha da natureza que não só penetra meu ânus como penetra minha mente. E quando eu o boto na minha boca é como se eu tivesse envolvendo e abraçando até mesmo a sensação de êxtase que invade o topo dos meus olhos, e o centro de minhas pálpebras.
Por quê? Por que sua personalidade é tão enigmática? Você não fala, suas palavras são curtas, firmes, não são conversas, são como imposições bem encaixadas, que o deixa como meu macho e mais viril, e eu me sinto como um objeto, e isso me excita e me adverte. O seu silêncio é como a moldura que envolve sua genital rara e cobiçada, e o mistura e potencializa como um acabamento de um quadro raríssimo de Picasso.
Não sei ao certo como vim para no meio de vocês dois, mas eu e o Roger nos olhamos em linha sobre o seu peito e só nós nos entendemos, como somos drogados por você..., e como silenciosamente sabemos que o disputamos com ódio, mas o compartilhamos com compaixão pelo outro. Não iniciamos brigas por medo de lhe incomodar...
Ahhh, esse seu silêncio quando está deitado nu olhando para o teto..., o brilho dos seus olhos se mistura com o contorno de seu queixo forte e os poros com a barba escura e curtinha saindo. Você está totalemnte distante, como uma estátua de testosterona que sabe que está sendo cultuado, e só com o seu cheiro e o pau pulsando e aumentando a cada latejar chama eu e o Roger a cair de boca em você. Odeio me sentir a sua presa, eu deixaria você cortar meu corpo quando sou invadido por esse êxtase..., assim saberia que meu corpo seria todo seu.
Eu tenho carinho pelo Roger e ele por mim, e respeitamos um ao outro como somos peregrinos do prazer que temos com você. Somos irmãos desse laço que troca e compartilha seu corpo, mas além do seu corpo seu ser, que não tem explicação, poros e pelos, e cheiro, e virilidade, e silêncio. Enerva fatal...
Sim, eu saí correndo e fui embora para nunca mais voltar..., meses depois Roger me contou que quando ele correu atrás Douglas segurou o braço dele e disse: "Não, ele fez uma escolha..."... e nunca mais foi falado de mim.
Não adiantava ficar ali, eu amava ele..., ele nunca saberia o que era amor, ele era tesão demais, e com isso dominava demais os seres que o almejavam, e soberano, sem fraquezas, sem vulnerabilidade, sob silêncio, sem nunca contar uma história, uma faceta de sua vida..., era um Deus sexual.
Eu saí sendo cortado por dentro pelo amor ao vício, por que não sei se eu o amava, mas eu estava ficando louco..., e eu só queria ser lembrado como alguém que não ficou em sua rede... E queria ser a manchinha em seu ego gigante e satisfeito... Eu nunca mais fui feliz..., mas tenho esse enorme orgulho, e me é o suficiente... eu saí!



Jennifer estava saindo da escola... e então parou atônita, do outro lado do corredor, perto da saída, viu Douglas... Os dois estavam parados, se olharam por um tempo, ela foi andando até ele e ele até ela... Ao se reencontrarem não houve abraços... e os dois começaram a caminhar lado a lado.
Jennifer então perguntou:
- Já fazem muitos anos...
Ele respondeu:
- Mas eu voltei, como diria que voltaria.
Ela então disse:
- Eu entendi seu desaparecimento, mas os pais da Angela não. Você encontrou o que estava procurando?
Então Douglas falou calmamente:
- Eu estava procurando por amor, e eu encontrei, mas esse amor foi embora também, só que de outra forma. Saiu correndo, abriu a porta de casa e desapareceu.
Jennifer então finaliza:
- Então você está encontrou o que queria, isso é bom meu filho.
Douglas pergunta:
- Já faz quanto tempo?
Então foi quando Jennifer, maravilhada, percebeu que pela primeira vez em sua vida..., não conseguiu contar os dias...

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Cinzas de sonhos

  As linhas de expressões em seu rosto enquanto gritava, em um segundo para outro desvaneceram-se, inesperadamente para sempre.
 E o som ecoante dos gritos nas paredes rebatidos em sua memória, transformou a mente lírica em estéril, sem partos para novos sonhos. E ele só queria ir embora, apenas ir embora, não importasse para onde, e ele foi...
 Ele voltou para a estrada do esquecimento, ele estava aqui comigo, mais uma vez. Em um local sem testemunhas e sem julgamentos, à espera do fim; ou de qualquer recomeço.
 Ele só queria brincar, brincar com os novos, que ainda não sabiam o terror de suas emoções mais ocultas, e assim ele podia fingir que seu mundo não fora assim.
 Em cada conversa banal, ou em cada risada superficial, debochava jubiloso afrontando seus traumas, provando que não podiam o alcançar..., mas por breves momentos... sucumbia.
 Por fim, virou amante do mundo, espalhando lembranças a todos, tão espalhadas ao ponto que ninguém poderia fixá-las..., ele apenas viveria para aproveitar o mundo, as pessoas, entretanto negando ser memória de suas almas. E elas da sua.

 Ela está entorpecida, e escondida por trás dessas sensações, foram tantos anos, é difícil lembrar quem ela é, ou o que estava fazendo ali. Ou o que ela está agora fazendo aqui.
 Só o mundo a assegura de seus passos, ditando os valores de cada coisa e ela os aceita, por já estar cansada.
 Ela dá seus passos em forma de labirinto, e o mundo a pune, exigindo a humildade de ser e fazer o que todos hão de ser e fazer.
 A arte acumula-se solitária em sua garganta, a atrofia de expressões e compartilhamentos humanos se acumulam em cifras aos seus ouvidos.
 Ela quer alcançar algo, ela quer ser protagonista de anedotas por vezes, mas ela não quer isso na forma de amor, ela quer liberdade, ela quer controle.
  A aversão aos comuns, sua retração às bajulações óbvias e enjoativas. Ela está estupefata de homens em formato capitalista, com suas ambições aquisitivas, suas trovações previsíveis, e desejos primários e simples. Cansada no geral de humanos, são apenas coexistências convenientes, por vezes fatigantes.
 Por fim, virou amante da arte, único vínculo vital que sacia sua fome de inovação, de diferente, de distinto, antes que definhasse em inanição.

 Tão bonito, e tão divertido. Exala sensualidade e atrai pessoas necessitadas de alegria..., mas tão dividido pois não encaixa seus desejos que murcham estando incompletos. Seu lado introspectivo se afoga na cultura, seu lado extrovertido traga o social. Lados tão distantes, tão distantes, que tal enigma contrasta sufocando suas virtudes, pois como um copo de água e óleo que não se misturam, ele tem de tomar todo dia.
 Se pudesse se livrar dessa inveja, dos que ao menos são um dos dois melhores do que consegue. Mas é refém dos dois lados, introversão e extroversão que ao meio o partem. Ele teme, pois sabe que nunca conhecerá nenhum dos dois extremos, se considerando simples e comum, e assim acomodou-se como um humano proveitoso da vida, da cultura, porém banal.  E os segredos que se encontram além do seu limite, não são mais preocupações.
Sem misticismo, sem símbolos, sem arquétipos, sem psicodelia, sem filosofia. Porém muito próximo disso, no ponto quase, conforma-se ao feliz e satisfeito.
Por fim, virou amante da normalidade, aproveita por fim e afinco a vida,....... a vida até onde ele conhece e até onde ele considera.

 O último é como uma dessas frequências desconhecidas de fluídos do universo, que não funcionam e nem misturam-se com carbono, e nessa tentativa imoral e violante gerou-se essa falha... Deu-se por louco, por cobaia fatalista inserido nos confins da humanidade.
 Quase uma demência bela, quase uma identidade funcional. Entretanto todos aspectos que correm em volta aperta e sufoca qualquer uma dessas entidades particulares... que estejam além do abaixo "minoria".
Magnificente e tardio, vive todas as dores; só por curiosidade de saber a forma do amor.
 Vivendo a tristeza cotidiana da falta de interligação, litigação humana e dissociação da "tal realidade".
 A bondade em forma de maldade, e a maldade em forma de bondade. Lutando em seu íntimo.
Síndromes ainda não encontradas... complexos ainda não avaliados.
Intrigado pelos referenciais de importância humana serem tão selecionáveis por aquilo que lhes afeta a memória, os marca, os atiça e os aclama. Por aquilo que os satisfazem.
 E como é contígua e longa a dor da rejeição e descarte...,  que o lança ao ódio de terminar invisível. Sem que todos o experimentassem. Narcisista intenso, sente pena da humanidade que não enxerga ou sente o mísero de seus olhos. E àqueles que não tiveram um particípio alternativo.
Por fim se tornou amante do paradoxo, extrator e estudante de insanidades e sanidades. Acabou por tornar-se presidiário de seus alvos estudados. E silêncio de sua magnitude.
 Chegando ao fim da cota, sobrou arrogância de ser o que é, sobrepujando humanos a vida toda, e terminando sendo o menor deles. O maior e o menor deles.