terça-feira, 22 de outubro de 2013

Cinzas de sonhos

  As linhas de expressões em seu rosto enquanto gritava, em um segundo para outro desvaneceram-se, inesperadamente para sempre.
 E o som ecoante dos gritos nas paredes rebatidos em sua memória, transformou a mente lírica em estéril, sem partos para novos sonhos. E ele só queria ir embora, apenas ir embora, não importasse para onde, e ele foi...
 Ele voltou para a estrada do esquecimento, ele estava aqui comigo, mais uma vez. Em um local sem testemunhas e sem julgamentos, à espera do fim; ou de qualquer recomeço.
 Ele só queria brincar, brincar com os novos, que ainda não sabiam o terror de suas emoções mais ocultas, e assim ele podia fingir que seu mundo não fora assim.
 Em cada conversa banal, ou em cada risada superficial, debochava jubiloso afrontando seus traumas, provando que não podiam o alcançar..., mas por breves momentos... sucumbia.
 Por fim, virou amante do mundo, espalhando lembranças a todos, tão espalhadas ao ponto que ninguém poderia fixá-las..., ele apenas viveria para aproveitar o mundo, as pessoas, entretanto negando ser memória de suas almas. E elas da sua.

 Ela está entorpecida, e escondida por trás dessas sensações, foram tantos anos, é difícil lembrar quem ela é, ou o que estava fazendo ali. Ou o que ela está agora fazendo aqui.
 Só o mundo a assegura de seus passos, ditando os valores de cada coisa e ela os aceita, por já estar cansada.
 Ela dá seus passos em forma de labirinto, e o mundo a pune, exigindo a humildade de ser e fazer o que todos hão de ser e fazer.
 A arte acumula-se solitária em sua garganta, a atrofia de expressões e compartilhamentos humanos se acumulam em cifras aos seus ouvidos.
 Ela quer alcançar algo, ela quer ser protagonista de anedotas por vezes, mas ela não quer isso na forma de amor, ela quer liberdade, ela quer controle.
  A aversão aos comuns, sua retração às bajulações óbvias e enjoativas. Ela está estupefata de homens em formato capitalista, com suas ambições aquisitivas, suas trovações previsíveis, e desejos primários e simples. Cansada no geral de humanos, são apenas coexistências convenientes, por vezes fatigantes.
 Por fim, virou amante da arte, único vínculo vital que sacia sua fome de inovação, de diferente, de distinto, antes que definhasse em inanição.

 Tão bonito, e tão divertido. Exala sensualidade e atrai pessoas necessitadas de alegria..., mas tão dividido pois não encaixa seus desejos que murcham estando incompletos. Seu lado introspectivo se afoga na cultura, seu lado extrovertido traga o social. Lados tão distantes, tão distantes, que tal enigma contrasta sufocando suas virtudes, pois como um copo de água e óleo que não se misturam, ele tem de tomar todo dia.
 Se pudesse se livrar dessa inveja, dos que ao menos são um dos dois melhores do que consegue. Mas é refém dos dois lados, introversão e extroversão que ao meio o partem. Ele teme, pois sabe que nunca conhecerá nenhum dos dois extremos, se considerando simples e comum, e assim acomodou-se como um humano proveitoso da vida, da cultura, porém banal.  E os segredos que se encontram além do seu limite, não são mais preocupações.
Sem misticismo, sem símbolos, sem arquétipos, sem psicodelia, sem filosofia. Porém muito próximo disso, no ponto quase, conforma-se ao feliz e satisfeito.
Por fim, virou amante da normalidade, aproveita por fim e afinco a vida,....... a vida até onde ele conhece e até onde ele considera.

 O último é como uma dessas frequências desconhecidas de fluídos do universo, que não funcionam e nem misturam-se com carbono, e nessa tentativa imoral e violante gerou-se essa falha... Deu-se por louco, por cobaia fatalista inserido nos confins da humanidade.
 Quase uma demência bela, quase uma identidade funcional. Entretanto todos aspectos que correm em volta aperta e sufoca qualquer uma dessas entidades particulares... que estejam além do abaixo "minoria".
Magnificente e tardio, vive todas as dores; só por curiosidade de saber a forma do amor.
 Vivendo a tristeza cotidiana da falta de interligação, litigação humana e dissociação da "tal realidade".
 A bondade em forma de maldade, e a maldade em forma de bondade. Lutando em seu íntimo.
Síndromes ainda não encontradas... complexos ainda não avaliados.
Intrigado pelos referenciais de importância humana serem tão selecionáveis por aquilo que lhes afeta a memória, os marca, os atiça e os aclama. Por aquilo que os satisfazem.
 E como é contígua e longa a dor da rejeição e descarte...,  que o lança ao ódio de terminar invisível. Sem que todos o experimentassem. Narcisista intenso, sente pena da humanidade que não enxerga ou sente o mísero de seus olhos. E àqueles que não tiveram um particípio alternativo.
Por fim se tornou amante do paradoxo, extrator e estudante de insanidades e sanidades. Acabou por tornar-se presidiário de seus alvos estudados. E silêncio de sua magnitude.
 Chegando ao fim da cota, sobrou arrogância de ser o que é, sobrepujando humanos a vida toda, e terminando sendo o menor deles. O maior e o menor deles.

2 comentários:

Anônimo disse...

No fim das contas o mundo acaba nos engolindo não é mesmo? Nossa essência permanece imutável, mas aprendemos a ignorá-la cada vez mais. Talvez isso seja parte do processo de amadurecimento... não esquecer quem somos, mas sair do plano das idéias para conseguir conviver aqui.

Paulo Guidi de Barros disse...

Narcisismo assola a humanidade. Antissociais, frios, falsos. Uma doença que contamina a mente e a alma das pessoas. Atinge famílias, filhos e pais. Quem não pede ajuda acaba sucumbindo mesmo. Felizmente, com amigos sinceros, alguns familiares bem informados e profissionais da saúde mental, hoje podemos contar com uma boa rede de apoio. Mas, as vítimas são quase invisíveis, e cabe a sensibilidade de cada um para estender a mão e oferecer ajuda e caminhos a seguir.