terça-feira, 19 de agosto de 2014

Aríete quebrado.

 Como o carrasco da minha própria tortura, aceitei enxergar diante de mim os reflexos dos meus erros passados.
Sob minha pele, uma jazida de arrependimentos e culpas, acumuladas como punição.
Atrás da minha retina um espetáculo silencioso, um teatro que é revivido todo dia, em cortinas que nunca se fecham.
Nos meus pés, correntes da vida, que limitam o raio do meu alcance.
Eu queria ser bom o suficiente pra você, vocês, mais de um, o de ontem, de hoje, os de amanhã.
Não sou e não serei. Mas mais importante, não sou suficiente à mim.

Na teoria somos grandiosos; no papel, magníficos. Mas na realidade, famintos, dependentes e com sede.
Sobreviventes só pelos alimentos que consumimos sem gratidão, e os sumimos; os sumimos.
E contíguos de instintos necessitados. As risadas, as caças, os olhares, as conversas, o sexo, o predadorismo; partes do nosso sistema digestivo de outros humanos.
E os sumimos.

Sua mente trabalha por símbolos, um conjunto de mensagens que constantemente convocam por algo.
Almeja conceitos, como as linhas imaginárias que ligam estrelas, até formarem uma constelação.
Linhas que foram criadas por humanos; para estrelas estáticas, solitárias, no frio e silencioso espaço.
O pequeno formador de constelações.

O que você possui, eu quero, mas apenas não posso.
O que você é, eu respiro, mas apenas não trago.
O que você sente, eu entendo, mas não testemunho.

Nos caminhos que irei, levarei seus sorrisos.
Nas estradas que caminharei chutarei as pedras com os seus pés.
Lembrarei do seu castelo de muralhas altas e fortes.
Lembrarei que sou um aríete quebrado.