Meses se passaram, o miasma que tomava a minha mente se dissipou, a posse, o ciúmes encontraram sua conformação e o equilíbrio em sua órbita que era volátil, e estou pronto e clarificado, após meditações a fazer o real pedido de desculpas.
Sei que teu coração foi selado com juramentos implícitos de nunca mais se aproximar de mim ou se comunicar, e que tua vida já teve atitudes que mudaram o trilho e todo o destino da estação do nosso futuro. Mesmo assim, isso aqui não tem nenhum objetivo, a não ser mostrar pra ti minhas sinceras desculpas.
Nós cometemos erros, mas eu cometi o erro maior, não a agressão, mas as bases de exigências extremas e a falta de compreender teu tipo de comunicação, expressão e a forma como teu amor redige as coisas. Eu que sempre preservei a diferença, em vez de ser grato pelas tuas formas excêntricas de expressão, acabei cobrando as fantasias que são inerentes a todos os seres humanos e fazendo delas uma fome interminável. E não entrei dentro do teu modo, no teu tipo alternativo de levar relacionamentos, mundo, valores, e amor.
Talvez não houve amor tão belo como o teu, sempre comunicativo, sempre presente, sempre unido, corajoso, focado, lindo e determinado. E eu, numa forma monstruosa e suja, quis encaixar tuas características em um molde de perfeição e ilusão, onde minha alucinante exigência, mimada por anos, não aceitava reações contrárias, e cobrava que fossem no meu formato desejado, ou no formato dos humanos, das relações, dos relacionamentos ou ideologias de namoro.
Fui vil e cruel, por que descartei a tua forma de expressão única e mágica, e te acusei incessantemente por não fazê-la, do modo tradicional, mágico e místico que eu alucinava.
Eu te amei de uma forma errada, tão exigente quanto uma bíblia, tão cruel quanto uma religião. E fiz do nosso relacionamento um culto dos meus desejos, e tu estava sendo o sacrifício do meu ritual.
No meio das minhas cobranças, desconfianças e alucinações, eu pari esse relacionamento narcisista, e esqueci da falta de carinho, da falta de alegria, da falta de prazer que tu necessitava.
E desnutri tuas necessidades, tua voz, tua presença, e fiz dela um adorno às minhas realizações, e me desconectei totalmente de ti.
Frente ao monstro doentio, fanático e vislumbrado que eu criei, suas brigas, retaliações e resistências estavam certas. Pois lentamente eu o empurrava de novo ao ventre do mundo, para que saísse correto e funcional.
Mas você era perfeito, da forma que nasceu, da forma que o mundo lhe concedeu.
Por mais frio ou sociopata fossem seus valores, certeza eu tenho que não me machucaria, e mesmo não entendendo minhas emoções, necessidades e sensibilidade, jamais iria avariar meu corpo e coração.
E por mais estranhas fossem suas mentiras, eu deveria amá-las, na forma do ritmo que você caminha, amar seus engatinhos, seus passos, sua forma de escolher sua vida.
Eu não o fiz, não respeitei, da diferença (dos meus padrões) fiz suas atitudes um crime; e passo à passo me afastei do meu amado, e criei um espelho que refletia os pesadelos dos meus maiores medos.
Sua face e seus olhos, sinceros e puros, eu tornei reflexos dos meus demônios internos, e sua jovialidade eu transformei em antagonistas dos meus heróis e aspirantes.
Passo à passo, na minha confusão psíquica, eu convidei complexos vértices negros para questionar suas atitudes.
Enquanto eu era protegido pelos advogados do tradicionalismo, e isentado pelos falsetes de códigos morais de condutas de relacionamento.
Eu, aquele que cobrou cumplicidade foi a que menos ofereceu, por que não deixei suas palavras e atitudes escolherem e decidirem comigo quais seriam nossas regras e referenciais. Apenas apresentei o contrato e cobrei por sua assinatura, e cobrei agressivamente, o afastando, e julgando, e diagnosticando.
Os limites que eu não queria, para sermos infinitos e livres; eu sufoquei um à um em palavras, atitudes, te jogando no medo e na opressão.
Aos poucos, momentos puros nossos eram esmagados pelas pedras/lápides dos meus 2000 mandamentos.
Fui tirando nossos sorrisos do relacionamento, e culpando-o por cada incorrespondência (mas como poderia corresponder? Eu era uma ameaça silenciosa).
Eu fazia de companhia regras absolutas, e da presença uma procuração de bom relacionamento.
No fim, em vez de amar seus defeitos eu achei que tive o direito de esfregar eles em sua cara. E assim o fiz.
O simples humano que queria viver prazeres leves com seu namorado, engoliu todas as facas que eu apunhalei nas minhas próprias costas em auto-flagelo.
Hoje é um dia de revelação, por que eu te amava de verdade, e perdi o foco para o seu doppelganger que ficou preso na minha retina. O qual ele eu temia.
E todo um estratagema saiu do meu obscuro mais psíquico...
E não o permiti ser você. Eu não o permiti viver você. Eu não o permitia mais querer ser você. Eu não aceitava e evitei viver você.
Por mais louco que sejas, você é você, e era o que eu deveria amar.
E por mais psicopata que sejas, você é um ser de Deus, perfeito em sua essência e confusa natureza.
Eu te amo e agora..., eu apenas sinto que matei meu verdadeiro amor.
Pois em sua limitada expressão de vida, eu deveria aprender a sua linguagem, e amá-lo, antes dos meus medos, antes da minha culpa eterna.
E que agora estou pronto para te amar de verdade, mas só te terei nos meus sonhos, na minha culpa, e nas lembranças de minhas células.
No pior tormento que um ser humano pode ter, mancha preta na alma. Ter matado o seu verdadeiro e único amor.