terça-feira, 3 de abril de 2012

Antípoda

 Havia um vilarejo que em volta só existiam extensões intermináveis de gelo e sal. Era um horizonte infinito de um planeta perigoso, frio como o centro da lua, e ninguém poderia sair do vilarejo, que era quente e úmido como o centro do sol.
 Pessoas viviam nessa terra, cercadas de uma muralha de árvores floridas que afastava o frio congelante. E Viana era uma garota silenciosa como a visão da paisagem e singela como a brisa, e assim como os outros humanos do vilarejo, não possuía tato. Todos trabalhavam como um sistema funcional e todos conversavam como amigos.
 Um belo dia, uma nevasca derrubou uma das árvores da muralha, criando uma pequena brecha, por onde passou um pequeno fio de vento gélido, que tocou Viana e os outros membros do vilarejo, rachando suas peles, que nos próximos dias começaram a descascar.
 Neste dia em particular, Viana dormia ao lado de Barto, um homem de sorriso largo, e começou a sentir uma sensação nova, que fazia seu corpo tremer e se encolher, foi acordar Barto, mas ao tocar seus braços, sentiu sua textura, e seu calor, e aquilo apaziguou aquela sensação desconhecida. Barto acordou e por sua vez tocado por Viana sentiu uma maciez em suas mãos, e também a suavidade de sua pele e seu calor. Foi quando se aproximaram lentamente, colaram seus corpos e dormiram compartilhando aquele conforto inexplicável.
 No outro dia acordaram..., e todos estavam diferentes, mas não se aproximavam.... Agora suas peles sentiam e tudo os afastava.
 Exceto Viana e Barto, que aos poucos se aproximaram noite e noite. Então começaram a passear pelos campos do vilarejo, deitavam na grama, curtindo o brilho das estrelas e contornando com os dedos para ver se podiam tocá-las e senti-las, e assim começaram a conhecer a distância..., e assim Viana também começou a conhecer a textura das coisas, por que Barto começou a passar flores pelo seu corpo, e em um dia bonito e radiante, deitou sua face na barriga de Viana, que sentiu os lábios de Barto macios, quentes e suaves.
 A princípio aquilo a assustou, mas ambos já estavam curiosos, e cada dia experimentavam novas sensações, que começaram a se tornar um misto de prazer e conforto. Gravando cada momento em sua memória, mistificado por algo forte, que os chamava dia à dia a estarem juntos.
 As coisas começaram a ficar diferentes, Viana percebia que cada momento se tornava um símbolo em sua cabeça, e inundavam seus sonhos. O rosto de Barto não saía de sua mente em nenhum minuto, e no outro dia era um dia de acordar e explorar algo novo com Barto, e despercebidamente começaram a se apaixonar, um construía o dia do outro, e um trazia novas sensações, até que deitados em um campo florido, começaram a tocar seu corpo e juntos, atrevidos, sem medo, sem barreiras, cúmplices daquela curiosidade, entregaram-se totalmente, confiando um no outro..., e tiveram sua primeira noite de amor, onde seus corpos queimaram, tentando entrar um no outro, com força, com impulso, com puxão, apertos, e gozaram com o atrito de suas novas peles.
 Compartilhando tudo, era seu segredo, e logo estavam se amando. Aos poucos, todos do vilarejo começaram a lentamente descobrir essas sensações, que os deixavam frágeis por suas peles sensíveis, mas fortes quando tocavam uns aos outros, e podiam se segurar em seus braços, protegidos do frio da noite, e do medo pela firmeza das mãos.

 Uma manhã, Viana e Barto foram sentir as sensações de uma caverna escura, é lá queriam fazer amor loucamente sobre as rochas e o escuro. Já que suas peles novas proporcionavam combinações intermináveis de situações. Mesmo que suas peles sentiam o mesmo, agora sentiam junto com o olhar, com a voz, os gemidos.
 Nesta caverna então, conheceram o perigo, uma cobra atacou a nova pele de Barto, que o envenenou. Ele começou a se sentir tonto, e ficar fraco, Viana o arrastou para fora e pensou que ele ia morrer. Após 3 dias e 3 noites apagados Barto acordou..., mas ele não era mais o mesmo, era apático e quieto, e também se tornou agressivo e se sentindo invadido a cada momento. Afastava Viana rispidamente, que ficou perdida e confusa com aquela mudança, mas ainda o amava, e estava arrasada em preocupação, pensando em meios de como trazê-lo de volta.

 Deitada sozinha, Viana acordou no meio da noite, sentindo falta do corpo de Barto em sua cama, e ele não estava ali. Ela o foi procurar, e o encontrou em cima do corpo de outra mulher, fazendo o que descobriram juntos, o que desvendaram juntos, e como se presenteavam juntos, ele fazendo como se fosse algo normal, banal.
 Começaram a debater sobre o assunto, e tudo que Viana não conseguia tirar da cabeça era a frase: "Se eu posso sentir com você, posso sentir com qualquer uma...".

 Então noites se passaram, Viana sentia frio, sozinha, até mesmo desejou ir até a caverna e ser picada por tal cobra. Ela queria se libertar daquelas lembranças, e queria se libertar do desejo de Barto ao seu lado. Mas apenas não conseguia. E nesta noite ela se levantou, chegou a Barto e falou que o amava. Ele se levantou e dizendo que queria experimentar mais, andou em direção à floresta, e atravessou a barreira..., desaparecendo pra sempre no horizonte branco, de gelo e sal...

 Viana pensou em ir atrás, mas não poderia arriscar sua vida, não poderia ir atrás de alguém que também representava sua morte. E assim permaneceu no vilarejo. Noites e noites se passaram, Barto nunca voltava. Ela o amava demais, entendia sua confusão, e entendia sua curiosidade... Mas não entendia sua distância, eram tão cúmplices e já foram os melhores companheiros.
 Dias se passaram, meses se passaram, Viana tentou encontrar novos companheiros, Viana dormiu com outros homens e conversou com outros homens. Viana experimentou novas sensações, mas nenhuma a preenchia...
 Mais meses se passaram, e aquela sensação se modificava, ora diminuía, ora aumentava.
 Foi então que em um sonho, teve a certeza que Barto estava morto. Preferiu andar à deriva em direção à morte à procura de algo novo, do que ficar em seus braços e experimentar mais coisas, e ir além.

 Então..., desolada por uma sensação que rasgava sua pele, com suas lembranças corrompidas, Viana voltou aquela caverna, e matou a cobra. Mas a sensação não ia embora, noite e noite ela já rolava na cama, e conheceu a oração, e lágrimas intermináveis.
 Sentou-se na caverna, onde permaneceu chorando por 3 dias e 3 noites, sua pele rígida começava a crescer de novo, porém mais endurecida, e por mais que os membros do vilarejo fossem falar com ela, ela não se mexia. E Viana se transformou em uma estátua..., que continuava a chorar. Suas lágrimas intermináveis começaram e gerar um rio..., e suas lágrimas eram o vazamento de seu amor ínsito e profundo.
 As pessoas do vilarejo se ajoelhavam diante dela, e quem se aproximava chorava com sua dor.
 Então com o tempo, as pessoas do vilarejo que sofriam desilusões amorosas iam até Viana e entregavam seu coração, e assim se livravam de sua dor nas lágrimas de Viana, que a cada coração recebido as aumentava...

 A medida que o rio de suas lágrimas crescia, começou a atravessar a floresta. Anos e anos e começaram a derreter o gelo salgado, gerando continentes, e mares. Suas lembranças vividas naquele lugar se espalhavam pelo globo, gerando campos e campos floridos, e cavernas.
 Suas lágrimas abriram caminhos, e assim as pessoas do vilarejo foram conhecer o mundo criado por Viana, seu amor finalizou a era glacial.

 Porém Viana não sabia que Barto ainda estava vivo, só que do outro lado do planeta, se perdeu, e quando tentou a procurar novamente vagou e vagou, e sua pele longe de Viana também havia endurecido e este se transformado em uma estátua. Os dois foram consumidos pelo frio da falta um do outro e hoje são chamados de Polo Sul e Polo Norte. Enquanto no meio da terra ainda vivem as pessoas liberadas do vilarejo, aquecidas umas pelas outras. E sempre que sofrem uma grande desilusão, seu coração é entregue a Viana.
Distante entre dois pólos, um no sul e outro ao norte. Viana e Barto ainda tentam se encontrar, e seu magnetismo pode ser visto em bússolas, as lágrimas de Viana ainda aumenta e derretem as geleiras à procura de Barto.  Abandonados nos dois polos por seus companheiros, seus corpos estão envoltos de geleiras, afastado da humanidade, procurando-se...
 Às vezes os sentimentos de Viana e Barto se tornam frentes frias, e navegam entre os hemisférios, e podemos sentir o frio que os unia em cada inverno.
 As lágrimas de Viana liberaram o planeta para os aldeões, que não se transformam em estátuas pois seus corações são entregues à ela, e suas lágrimas viram lágrimas dela..., para que ela possa derreter um pouco mais o mundo à procura de seu amado...
 E o dia em que eles se reencontrarem, poderão viver o amor desperdiçado de todos os corações que lhe foram entregues.

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 (Em 2012 entrego meu coração à Viana..., e esse ano é o ano que as geleiras mais derretem aceleradamente... Eu espero que Viana reencontre e liberte Barto, por que não posso mais te encontrar. Por que meu coração agora é dela e de suas lágrimas. Mas às vezes..., sinto que estou prestes e me tornar mais uma estátua..., até que ele seja transferido...)

3 comentários:

EduardoCorrea disse...

Impossível não chorar.

Luna Interlude disse...

Putz a muito tempo uma coisa não me prendia até o fim assim..porém triste ;/ muito perfeito

Nina Toledo disse...

Não quero entregar meu coração a Viana!
Mas já tive a sensação de estar e tornando estatua :(